Gaúchos no programa Médico Sem Fronteiras

Confira acima áudio de Antonio Flores com o relato sobre as primeiras ações do MSF no ciclone que atingiu Moçambique em março de 2019. 

A ajuda médico-humanitária que transforma vidas

É muito provável que neste exato momento, enquanto você lê esta matéria, em alguns pontos da África, América, Ásia, Europa e Oceania existam seres humanos vivenciando as consequências de conflitos armados, desastres naturais ou sendo vítimas da desnutrição e de epidemias.

São contextos assim, de vulnerabilidade, que os mais de 45 mil profissionais que integram o programa Médico Sem Fronteiras (MSF) se deparam, diariamente, quando estão participando de projeto, em algum dos 70 países que recebem ajuda humanitária.

Atualmente, 130 médicos brasileiros estão cadastrados, sendo que 40 estão em missão. Para conhecer melhor a rotina destes profissionais, o Cremers Digital buscou o relato de dois gaúchos que já atuaram junto ao MSF: José Carlos Salomão Junior, ortopedista e traumatologista, de Santo Ângelo e Antonio Flores, infectologista de Porto Alegre. 


“Hoje o MSF é minha rotina”

Antonio Flores,
Infectologista, 33 anos
De Porto Alegre, formado na UFRGS em 2012

“Passei a entender a saúde pública como uma ciência multidisciplinar, cuja construção depende de diversos tipos de habilidades, experiências e conhecimentos em áreas que incluem ciências da saúde, sociologia e política.  Além disso, é preciso que a realidade da população de que cuidamos, esteja no centro da nossa ação”. É desta forma que o médico Antonio Flores, resume um pouco das suas experiências de 15 meses no Malaui, 14 meses em Moçambique e dois meses em Roraima, atuando em projetos do Médicos Sem Fronteiras.

Em Moçambique, depois de ter ficado por um ano, retornou ao país um mês antes do ciclone Idai, e permaneceu por mais trinta dias após o evento climático que atingiu Beira, cidade portuária, e matou mais de 600 pessoas. “Em uma das nossas clínicas de HIV na cidade de Beira, víamos uma média de 125 pessoas com HIV todos os dias antes do ciclone. Mas, em função do ciclone, o telhado do centro foi arrancado e as atividades ambulatoriais ficaram paralisadas por dez dias. Nossa equipe de educadores comunitários começou a ouvir relatos de pessoas, incluindo algumas trabalhadoras do sexo, que não puderam reabastecer suas receitas. Isso foi uma grande preocupação, porque algumas estavam tomando o remédio como forma de manterem-se seguras contra a infecção pelo HIV e outras para manter seu nível de vírus baixo o suficiente para não ser um risco para sua saúde e também para não transmitir”, relata o infectologista.

Mozambique (foto Mohammad Ghannam)

No Malaui, Antonio conta que viveu em um distrito rural onde mais de 2/3 da população sobrevive com menos de dois dólares por dia. “Lá 12% da população vive com HIV. Entre as populações vulneráveis que atendíamos, a prevalência é ainda maior. Por exemplo, as trabalhadoras do sexo têm um risco de 70% de contrair o vírus até os 35 anos”.

Para o médico a noção de ação coletiva, centrada no indivíduo, foi a grande experiência que o MSF trouxe para sua vida. “Precisamos adaptar o conhecimento e produzir dados baseados naquelas realidades nas quais estamos inseridos. Por exemplo, o risco de uma trabalhadora do sexo contrair HIV numa zona rural do Malaui é diferente do risco em uma grande cidade, é preciso ser pragmático e descrever a realidade como ela é, a fim de que nossa ação seja efetiva”. 

A experiência no Brasil

O infectologista, que atualmente está em uma missão de três meses no Sudão e Sudão do Sul, também explica como foi participar do projeto no Norte do Brasil. “Todas as experiências de fora foram trazidas e integradas no projeto de Roraima, que tive a oportunidade de abrir”. Trabalhando diretamente com o Sistema Único de Saúde (SUS) o objetivo central foi pensar estratégias inovadoras para levar cuidados de saúde à população venezuelana que vive em abrigos. “Trouxemos experiências de zonas de conflito para levar cuidados de saúde mental, bem como adaptamos estratégias de testagem de malária e HIV - focadas nos abrigos e não nos centros de saúde - para aumentar o acesso dessa população a esses serviços”, explica Antonio.

Aos 33 anos, o médico que fez sua residência no Hospital Nossa Senhora da Conceição em Porto Alegre, resume sua atividade médica: “hoje o MSF é minha rotina”. 



Redescobri a felicidade em ser médico”

José Salomão Jr.
Ortopedista e Traumatologista
De Santo Ângelo, formado na PUC/RS em 2004

A vontade de atuar em projetos do MSF se manifestou ainda na adolescência. A ideia foi sendo amadurecida durante a faculdade e, ao finalizar a residência em 2009 no Hospital Cristo Redentor, sentiu-se pronto. Em dezembro de 2016 José Salomao Junior partiu para a cidade de Bujumbura, capital do Burundi, centro do continente africano. Durante os três meses em que permaneceu no país, a desnutrição infantil e a falta de acesso ao atendimento de saúde, foram os aspectos que mais chamaram sua atenção. “Trabalhei no hospital L´arche, situado na região central de Bujumbura. Nas ocasiões em que tive a oportunidade de andar pela cidade percebi um país muito pobre. Moradias construídas com barro e madeiras, poucas áreas com energia elétrica. Apesar de todas as carências, um povo alegre, educado, acolhedor e muito agradecido pela atuação de MSF”.

Entre as consequências da desnutrição, uma população com diversos problemas de saúde, entre eles a fragilidade óssea, que resulta em fraturas graves, mesmo em traumas de baixa energia, explica o médico. Trabalhar em um ambiente desfavorável, com grande parte da população vivendo em situação de absoluta miséria trouxe outra percepção em relação à saúde pública. “ A carência em todos as áreas me fez perceber que, mesmo quando os recursos são limitados, é possível realizar um tratamento médico com qualidade quando temos equipes motivadas, qualificadas e bem geridas”.

Burundi (foto Martina Bacigalupo)

Sob a ótica pessoal, Salomão afirma ter redescoberto a felicidade em ser médico. “Relembrei que para tratar uma fratura de cotovelo em uma criança o médico precisa de uma estrutura enorme para apoiá-lo, mas nada é mais importante do que tratar com qualidade o paciente.  Na nossa profissão nada deve ser mais importante do que ajudar os pacientes, e nada traz mais felicidade do que melhorar a vida de alguém. Tenho certeza absoluta que ganhei muito mais do que entreguei”.

As vivências e aprendizados em Bujumbura, continuam reverberando na rotina do consultório e também do Hospital Unimed Missões, ambos em Santo Ângelo. “Procuro ouvir mais meus pacientes e dividir as experiências, ver um indivíduo e não uma patologia isolada. Tento reconhecer os profissionais que nos dão apoio e dividir responsabilidades. Tenho uma compreensão mais ampla e sei que muitas pessoas estão envolvidas no grandioso processo que é o atendimento em saúde”.


Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias.

Fonte: Assessoria de Comunicação do MSF

Como funciona a inscrição dos médicos no MSF

O processo de recrutamento começa no site de MSF (https://www.msf.org.br/trabalhe-conosco-exterior). O candidato precisa enviar o currículo em inglês e/ou francês junto com uma carta de motivação em português. Caso selecionado o próximo passo é uma pré-entrevista. A última parte do processo consiste em um dia de atividades do candidato no escritório de MSF no Rio de Janeiro. Neste dia é feita uma reunião sobre a organização, entrevista individual, um teste vivencial e um teste de língua estrangeira.  Após a aprovação do candidato, é necessário esperar aparecer uma oportunidade de trabalho em campo que se encaixe no perfil do profissional. Competências técnicas, especialidade, idiomas, disponibilidade são avaliadas, assim como se o profissional se identifica com os princípios que norteiam o trabalho de MSF, de imparcialidade, neutralidade, independência e transparência. 

Definição dos projetos

Cada projeto tem suas particularidades. Em cada um deles existem necessidades específicas, e o profissional será direcionado para onde ele for mais necessário, dependendo do contexto. Por exemplo: em emergências como uma epidemia a necessidade maior é de infectologistas, em situações de conflito armado, cirurgiões.

Especialidades com maior demanda

Algumas especialidades são mais demandadas, como por exemplo, ginecologistas mulheres em países muçulmanos, pois culturalmente não é comum que uma mulher tenha esse tipo de consulta com médico do sexo masculino. Outras necessidades frequentes são: pediatras e anestesistas que falem francês. Importante lembrar que os projetos de MSF também precisam de muitos profissionais de diversas áreas, tais como engenheiros, administrador/financeiro, especialista em água e saneamento, logístico, entre outros) e paramédicos (enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros).

Período

O período depende da especialidade do profissional e da necessidade de cada projeto. Por exemplo, cirurgiões costumam ficar até 6 meses, mas podem ocorrer missões de emergência mais curtas. De uma forma geral, a permanência mínima é de 3 meses e a máximo é de 1 ano.

Trabalho remunerado

Os profissionais recebem uma remuneração e não são voluntários. Eles assinam um contrato temporário e além da remuneração pactada tem todas as despesas com transporte e seguro cobertas por MSF.

Principais países onde existem brasileiros atuando

Recentemente, muitos profissionais brasileiros foram enviados para Moçambique por conta dos ciclones que atingiram o país. O fato de falarem português e terem afinidades culturais com o país africano facilitou o envio destes profissionais. Há países onde MSF possui muitos projetos, como Sudão do Sul, República Democrática do Congo e Afeganistão.