Prescrição de Zolpidem




















Dra. Claudia Ávila Moraes
Psiquiatra, Mestre em Ciências Médicas UFRGS
Formação em Terapia do Esquema – Wainer/ISST

Recebi este mês uma Carta aos Profissionais de Saúde da Agência Nacional Francesa para Segurança de Medicamentos e Produtos para a saúde, escrita em fevereiro de 2018 a respeito do hipnótico Zolpidem. Na carta, ressalta-se que “o risco de desenvolver abuso e dependência com Zolpidem aumenta com a duração do tratamento acima de 28 dias e em pacientes com história prévia ou concomitante de abuso de álcool ou drogas.” Esta carta é endereçada a clínicos gerais, psiquiatras, neurologistas, cardiologistas e geriatras.

Ainda que, na minha opinião, este reconhecimento sobre os riscos do uso de Zolpidem tenha sido veiculado muito tarde por órgão regulatório e pelo laboratório, vejo uma oportunidade para se discutir a ampla prescrição da medicação. 

Na minha prática clínica, atendo inúmeros casos em que os pacientes chegam na primeira consulta já fazendo uso do fármaco há muitos anos. E, eventualmente, chegam pacientes fazendo uso de cinco ou seis comprimidos de Zolpidem 10mg por noite.

Me pergunto: o que fazer para evitar tais situações de dependência, muitas vezes induzidas ou facilitadas por nós, médicos? Além do esclarecimento e tratamento dos pacientes, percebo ser válida a troca de experiência com colegas de outras especialidades. Por isso a ideia deste artigo.

Quando Zolpidem foi lançado, havia uma primeira indicação de que ele não causava dependência como os benzodiazepínicos ou, pelo menos, demorava mais tempo para fazê-lo. Então, muitos médicos passaram a prescrevê-lo para insônia. Inclusive, ele foi apontado como o hipnótico mais prescrito no mundo.

O Zolpidem é uma imidazopiridina, e é o primeiro agonista seletivo do receptor GABA-A para a subunidade α1. Apresenta uma meia vida de 2,4 horas e não tem metabólitos ativos. Sua principal indicação é para rápida indução, com algum efeito na consolidação do sono. A dose terapêutica média para insônia em adultos é de 10mg e de 5mg para idosos. É indicado para o tratamento a curto prazo da insônia (de duas a seis semanas).

Alguns dos efeitos adversos do fármaco são sonolência, fadiga, irritabilidade, cefaléia e amnésia no dia seguinte. Estes efeitos podem ser discretos ou bem evidentes e relacionam-se com a dose e a suscetibilidade de cada paciente, ocorrendo nas horas seguintes à administração, caso o paciente não vá para a cama e adormeça imediatamente.

Para insônia crônica, deve-se evitar o uso continuado do indutor de sono, sendo imperativa a investigação da possível causa do sintoma. Sabe-se que duas causas comuns são a depressão (mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão – OMS) e a ansiedade (em 2015, 18 milhões de pessoas sofriam com transtorno de ansiedade no Brasil).  Panorama que tende a aumentar, conforme dados da OMS. Isso nos indica que mais pessoas buscarão serviço médico com queixa de alteração do sono (além dos quadros psiquiátricos citados, há inúmeros outros que apresentam a insônia como sintoma).

Logo, é extremamente importante atentarmos para o tratamento mais apropriado para melhorar a qualidade do sono de quem procura auxílio médico, bem como para a troca de informações entre os colegas envolvidos no acompanhamento de um mesmo paciente.